“Antes que a centelha chegue à dinamite”: Precisamos falar sobre Walter Benjamin

Fonte: Acervo Boitempo

Por Fabio M. Querido

I.

Walter Benjamin não foi um intelectual qualquer. Pensador dos paradoxos da modernidade capitalista que, por vezes, tornou-se ele próprio um pensador paradoxal, Benjamin jamais se contentou em reafirmar o que já havia sido pensado. Mais importante, para ele, era pensar o ainda impensado, aquilo que demandava uma reflexão desprovida de respostas prontas.

Como seu amigo Bertold Brecht, Benjamin preferia enfrentar o “novo ruim” a se apegar ao “antigo bom”. Não porque ignorava este último, mas sim porque o deslocava do seu papel de salvaguarda explicativa para a análise de qualquer novo assunto ou acontecimento.

Sem a segurança do “antigo bom”, o pensamento se abre ao imprevisível, posicionando-se ativamente em face de uma história que, ao contrário do que se diz, não faz nada sozinha. A história, nos ensina Benjamin, é o que dela fazemos no presente. É nesse sentido que, para ele, nem o passado “estará a salvo se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.

Tudo isso se aplica, evidentemente, ao próprio modo como lemos Benjamin hoje. Ele só “estará a salvo” se, no presente, o tomarmos como aliado na luta contra um “inimigo que não tem cessado de vencer”. Tanto mais porque, após a sua morte, em setembro de 1940, e, em especial, a partir das décadas de 1970 e 1980, Benjamin foi transformado numa espécie de “mito”, tendo sido frequentemente confinado ao papel de ensaísta iconoclasta, da obra do qual podemos extrair – como se fosse uma caixa de ferramentas – um ou outro conceito, uma ou outra formulação isolada.  

Certa vez, em ensaio de 1937, Benjamin escreveu: “A compreensão histórica é entendida pelo materialista histórico como pós-vida do objeto de compreensão, cujo pulsar se faz sentir até o presente”. No nosso caso, é o próprio “pulsar” do pensamento de Benjamin que “se faz sentir até o presente”, e que se trata, portanto, de resgatar das tentativas de torná-lo palatável ao horizonte estilhaçado da modernidade burguesa da qual ele foi – mesmo antes de sua adesão ao marxismo, em 1924 – ferrenho opositor.

Benjamin assumia o caráter aparentemente fragmentado do capitalismo de seu tempo. Ele reconhecia a crise de representação (política e estética). Mas, na sua perspectiva, isso não significava tomar essa situação como um dado insuperável, e sim como ponto de partida para a operação crítica de juntar os cacos e ruínas da história, escovando-os a contrapelo e, assim, reabrindo o horizonte de expectativas. Benjamin sabia bem quem eram os “inimigos”. Alguns dos seus intérpretes, nem tanto.

II.

É esse o espírito geral do curso de introdução a Walter Benjamin a ser por mim ministrado no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do SESC, nos próximos dias 30 de setembro, 1 e 2 de outubro.

Baseando-se no livro recentemente publicado na coleção “Pontos de Partida”, da Boitempo, Walter Benjamin: uma introdução, trata-se de apresentar alguns dos elementos decisivos da trajetória e do pensamento de Benjamin à luz da história social, política e cultural de seu tempo, e, ao mesmo tempo, de estimular uma interpretação do autor alemão à altura do desafio que ele próprio se colocava, qual seja: o de pensar não a partir da noção de progresso, mas sim da ideia, que lhe era cara, de “atualização”.

O primeiro ensaio importante de Benjamin, “A vida dos estudantes”, é de 1914/5, ou seja, contemporâneo ao início da posteriormente chamada Primeira Guerra Mundial; o último, as “teses sobre o conceito de história”, de 1940, quer dizer, escrito em meio à intensificação da Segunda Guerra Mundial. Ele vivenciou, portanto, um dos períodos mais turbulentos da história da modernidade europeia e, em certa medida, global. Era um momento em que a exceção parecia permanente.

É nesse cenário que Benjamin atuou, e reconhecê-lo como elemento significativo de sua trajetória é um passo decisivo para a compreensão de seu marxismo explosivo – que se destacava pela maneira como integrava, sem medo da heresia, perspectivas geralmente vistas como alheias ou mesmo antagônicos à teoria social fundada por Marx, tais como o romantismo, as utopias messiânicas ou a sensibilidade libertária.

A fim de perseguir esse objetivo, as três aulas organizam-se em torno de alguns marcos decisivos da trajetória do autor:

1) a infância e a juventude em Berlim, na Alemanha, ou seja, o seu período de “formação” intelectual, assim como os primeiros desdobramentos de sua adesão ao marxismo, a partir de meados dos anos 1920, que coincide com o seu entusiasmo pelo surrealismo;

2) o itinerário de Benjamin a partir do final dos anos 1920 e virada para os 1930, e, sobretudo, após a ascensão do nazismo, em 1933, quando se exila na França. É nesse período que Benjamin se aproxima das preocupações políticas e intelectuais de Bertolt Brecht, a quem visita no exílio dinamarquês em diversas ocasiões. É um período, além disso, em que ele reorienta o projeto das Passagens, inserindo no centro de sua crítica à “Paris capital do século XIX” o tema das “fantasmagorias” da mercadoria;

3) a crítica do progresso e da modernidade, que se agudiza diante da ameaça fascista, nos últimos anos de vida de Benjamin, com destaque para as “teses sobre o conceito de história”. É quando, em meio à deflagração e intensificação da guerra, o crítico alemão medita sobre a “tempestade do progresso” e suas consequências nos planos intelectual e político.

Em conjunto, as aulas revelarão um autor inquieto, constantemente interpelado pelos acontecimentos de sua época. Um autor cuja obra se agarra, com força, nos chifres do presente, ao mesmo tempo em que rememora – do ponto de vista dos “vencidos da história” – o passado.

Se, para Benjamin, a “imagem dialética” suspende uma relação política entre presente e passado, quebrando assim a continuidade dos vencedores, talvez se possa dizer que ele próprio é hoje, para nós, uma delas. Em uma palavra: ele é um “passado” cujo “pulsar” se faz sentir no “presente”.

III.

E é justamente por vermos no passado em que viveu Benjamin um presente no qual as possibilidades não estavam definidas de antemão que, no nosso próprio “tempo-de-agora”, podemos visualizar a atualidade do intelectual alemão. Muita água passou por debaixo da ponte, o mundo e os desafios são outros, mas nem por isso as permanências, mesmo que remodeladas, se desmancharam no ar.

Assim como nos tempos de Benjamin, o fascismo voltou a ser uma ameaça. E, mais uma vez, as esquerdas hegemônicas o combatem em nome do progresso, tanto quanto o fizera a socialdemocracia alemã, nos anos 1930, em face da ascensão do nazismo.

Para Benjamin, ao contrário, o fascismo era um desdobramento possível do progresso, isto é, uma “exceção” contida na própria “norma” (liberal). Às classes oprimidas caberia, então, a construção de um “verdadeiro estado de exceção”, capaz de superar o próprio capitalismo e seus cães de guarda liberais ou fascistas.   

Diante da “estetização da política” promovida pelos fascistas, Benjamin defendia a necessidade de uma “politização da arte” e, mais ainda, da própria vida. Os surrealistas, dos quais Benjamin era admirador e retirou a inspiração inicial para o projeto das Passagens, aboliram as fronteiras entre arte e vida. Benjamin aboliu as fronteiras entre arte, ciência e vida.

Em 1935, André Breton afirmou que, para os surrealistas, “transformar o mundo”, como queria Marx, e “mudar a vida”, como queria Rimbaud, eram uma coisa só. Ora, Benjamin sempre quis transformar o mundo e, simultaneamente, mudar a vida, inclusive a sua – uma vida marcada pela instabilidade, em especial após o rechaço de sua tese de habilitação pela Universidade de Frankfurt, em 1925. Não conseguiu uma coisa nem outra, mas nunca deixou de tentar, até o limite de suas forças.

É por tudo isso, e muito mais, que precisamos falar sobre Walter Benjamin, antes que seja tarde demais – ou seja, como ele disse no fragmento “Alarme de incêndio”, “antes que a centelha chegue à dinamite”.

**** Fabio Mascaro Querido é professor do departamento de sociologia da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), onde também fez seu doutorado. É autor de Michael Löwy: marxismo e crítica da modernidade (Boitempo, 2016) e colaborador da Margem Esquerda , revista semestral da Boitempo.


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